Só existe uma chance, uma única e miserável chance e depois as conseqüências... Como saber qual é a coisa certa a fazer? Como saber o que deveria ser dito ou se simplesmente o silêncio bastava? Mesmo quando se toma uma decisão que parece acertada, a dúvida fica à espreita, exibindo um esboço de possibilidades perdidas.
Nunca se sabe o que fazer, para onde ir, para quem ligar... Frente a um milhão de possibilidades que parecem idênticas, há como saber qual delas salvará ou destruirá seus sonhos? Não. Não há como saber, só se vive uma vez e tudo o que se viver é único e breve, mas traz conseqüências para tudo o que ainda se irá viver...
De certa forma, uma decisão pensada e calculada se torna tão efetiva quanto uma decisão impulsiva. São tiros no escuro, decisões desesperadas em que se entrega à sorte todo o porvir dessa decisão. Como tomar a decisão certa, se cada uma de suas escolhas modifica todo o futuro? Não há com o que comparar ou verificar suas decisões, nunca se viveu nem se viverá essa dúvida novamente... Dessa forma, não há decisão certa ou errada, há a decisão tomada, boa ou ruim, e suas conseqüências para se enfrentar.
Para viver não há ensaio, ou antes, a vida é seu próprio ensaio. Sendo ensaio, que valor pode haver na vida? E, se só se vive/ensaia uma única vez, essa vida não seria como uma peça abandonada no primeiro ensaio? Algo que não foi levado em frente, uma peça cujo roteiro é incerto e nunca foi corrigido tem algum valor?
Lembro-me de algo que ouvi certa vez, quando ainda era bem pequeno. Um homem que hoje sei ser mais bêbado que filósofo, estava sentado numa praça, no interior, tinha cabelos e barba longa, olhos vermelhos e profundos e estava vestido em farrapos. Para mim, ainda criança, aquele homem era a imagem perfeita de um profeta, como aqueles das histórias antigas. Fiquei paralisado olhando esse homem. Ele, feliz por finalmente ter público, mesmo que pequeno, me disse com uma voz rouca e um pouco enrolada
“Diga o que disserem pequenino, viver é coisa séria. Por mais injusto que lhe pareça, nossas decisões são o que somos e as oportunidades, o que seremos. Pequenino, por mais que não pareça, a vida é séria e só se percebe o seu valor quando se perde algo importante. Não se engane a vida cobra caro e você não gostaria de estar por perto quando o martelo cai e a corda aperta”.
(baseado em "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera e num monólogo bêbado de um mendigo anônimo)
Mr. Nobody
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