quinta-feira, 23 de setembro de 2010

“O duque Mu da China disse a Po Lo: ‘Você está bem entrado em anos. Haverá alguém em sua família capaz de substituí-lo na tarefa de procurar cavalos para mim?’. Po Lo respondeu: ‘Um bom cavalo pode ser selecionado por sua aparência e constituição física. Mas o cavalo fora de série – o que não levanta poeira e nem deixa rastro – é algo evanescente e fugidio, tão intangível quanto o ar rarefeito. Os talentos de meus filhos situam-se em plano definitivamente inferior: reconhecem um bom cavalo quando o vêem, mas são incapazes de identificar um cavalo excepcional. No entanto, tenho um amigo chamado Chiu-Fang Kao, um vendedor de lenha e de legumes, que não fica nada a me dever em matéria de cavalos. Por favor, fale com ele’.

O duque Mu assim fez, enviando-o logo depois em busca de um cavalo. Passados três meses, ele voltou anunciando que o encontrara. ‘Está agora em Sach’iu’, acrescentou. ‘Que tipo de cavalo é ele?’, perguntou o duque. ‘Ah, é uma égua baia’, foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o animal, verificou-se que era um garanhão negro como carvão! Muito contrariado, o duque mandou chamar Po Lo. ‘Esse seu amigo’, disse ele, ‘que contratei para encontrar um cavalo, meteu os pés pelas mãos. Ora bolas, não sabe nem distinguir a cor ou o sexo de um animal! O que é que ele pode entender de cavalos?’ Po Lo soltou um suspiro de satisfação. ‘Será mesmo que ele chegou a tal ponto?’, perguntou em tom excitado. ‘Ah, então ele é dez mil vezes melhor do que eu. Não há comparação entre nós. O que o Kao tem em mira são os elementos espirituais. Certificando-se do essencial, esquece os detalhes comezinhos; concentrando-se nas qualidades internas, perde de vista os sinais exteriores. Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver. Kao é tão sabido como avaliador de cavalos que deveria julgar algo melhor do que simples animais.’

Quando o cavalo chegou, provou ser extraordinário.”




(conto taoísta retirado de "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira", de S.D. Sallinger)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ANTESSALA E KENSHÖ

Algumas vezes me parece que após terminar o que me propus a fazer não restará nada e serei transportado de volta ao limbo, onde ficarei sem luz, movimento, som e sequer pensamentos, até que me seja atribuída uma nova missão. Missão que parecerá que escolhi, mas que foi sussurrada em meus ouvidos por uma força estranha e, ao mesmo tempo, tão familiar.

E essa voz, que não se apresenta mas que eu intuitivamente conheço, me sugere o que fazer, embora pareça que estou decidindo cada uma de minhas ações. Entrego-me a essa missão que já foi concluída e fracassada incontáveis vezes nos milésimos de segundo em que decido cada ato e, mesmo sem compreender o que estou fazendo, me parece tão obvia e fundamental.

Essa voz me agrada. Essa ilustre desconhecida pertence a aquele gênero de coisas para as quais não faz nenhuma diferença que eu creia ou deixe de crer nelas. É algo tão superior que simplesmente existe, quer eu acredite quer não, e apenas eu perco ou ganho tendo ou deixando de ter fé.

É algo que simplesmente está lá, mesmo que seja apenas uma ilusão, esperando que eu a encontre. É o que permite que meu eu-religioso encontre meu-Deus no reflexo da chuva, no fundo das cinzas dum cinzeiro, numa mancha de sangue, numa lagrima equilibrada na ponta de um nariz e em todas essas coisas corriqueiras e pequenas para as quais eu fecho meus olhos.

É o que permite que eu encontre uma flor enquanto arranco as pétalas de outra e que eu encontre um novo encanto num amor enfermo. Não há muito que dizer a respeito disso, apenas que sei, ou antes, sinto, que alguma força se movimentou para que tudo não tenha sido APENAS perda de tempo e dor.

Não é o tipo de coisa que se encontre em livros ou discursos, mas quem sabe ouvir percebe que ela está em cada palavra que já foi dita ou escrita. É a força que faz com que exista um pequeno poema em cada insignificante detalhe do mundo, apenas esperando por ser declamado.

É uma presença que delicadamente sai de cena quando estou ocupado (ou seja, motivado por ela) e que me guia quando me perco. É o que me permite morrer diversas vezes durante a vida e mudar em cada renascimento, pois apesar de parecer e me sentir o mesmo ao sair de minhas grandes crises, sei que a voz está se tornando mais clara e que meus passos estão se tornando mais certos.

"Love you everyday girl
always on my mind"