quinta-feira, 8 de outubro de 2009

EINMAL IST KEINMAL

Só existe uma chance, uma única e miserável chance e depois as conseqüências... Como saber qual é a coisa certa a fazer? Como saber o que deveria ser dito ou se simplesmente o silêncio bastava? Mesmo quando se toma uma decisão que parece acertada, a dúvida fica à espreita, exibindo um esboço de possibilidades perdidas.

Nunca se sabe o que fazer, para onde ir, para quem ligar... Frente a um milhão de possibilidades que parecem idênticas, há como saber qual delas salvará ou destruirá seus sonhos? Não. Não há como saber, só se vive uma vez e tudo o que se viver é único e breve, mas traz conseqüências para tudo o que ainda se irá viver...

De certa forma, uma decisão pensada e calculada se torna tão efetiva quanto uma decisão impulsiva. São tiros no escuro, decisões desesperadas em que se entrega à sorte todo o porvir dessa decisão. Como tomar a decisão certa, se cada uma de suas escolhas modifica todo o futuro? Não há com o que comparar ou verificar suas decisões, nunca se viveu nem se viverá essa dúvida novamente... Dessa forma, não há decisão certa ou errada, há a decisão tomada, boa ou ruim, e suas conseqüências para se enfrentar.

Para viver não há ensaio, ou antes, a vida é seu próprio ensaio. Sendo ensaio, que valor pode haver na vida? E, se só se vive/ensaia uma única vez, essa vida não seria como uma peça abandonada no primeiro ensaio? Algo que não foi levado em frente, uma peça cujo roteiro é incerto e nunca foi corrigido tem algum valor?

Lembro-me de algo que ouvi certa vez, quando ainda era bem pequeno. Um homem que hoje sei ser mais bêbado que filósofo, estava sentado numa praça, no interior, tinha cabelos e barba longa, olhos vermelhos e profundos e estava vestido em farrapos. Para mim, ainda criança, aquele homem era a imagem perfeita de um profeta, como aqueles das histórias antigas. Fiquei paralisado olhando esse homem. Ele, feliz por finalmente ter público, mesmo que pequeno, me disse com uma voz rouca e um pouco enrolada

“Diga o que disserem pequenino, viver é coisa séria. Por mais injusto que lhe pareça, nossas decisões são o que somos e as oportunidades, o que seremos. Pequenino, por mais que não pareça, a vida é séria e só se percebe o seu valor quando se perde algo importante. Não se engane a vida cobra caro e você não gostaria de estar por perto quando o martelo cai e a corda aperta”.




(baseado em "A Insustentável Leveza do Ser" de Milan Kundera e num monólogo bêbado de um mendigo anônimo)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

OBíQUO

É como se tivesse sido apenas um sonho e agora eu estivesse desperto. Acordado, caminho pelos lugares em que se passaram meus sonhos, como se buscasse uma nova ilusão. E é estranho, pois esses lugares parecem perfeitamente iguais, mas falta-lhes algo, como se em sua amplitude algo tivesse sido roubado e os cenários dos meus sonhos e de meus dias estivessem mutilados.

Em toda parte há uma brisa, uma espécie de sussurro ou de eco que tenta me lembrar de algo que está se desfazendo e escorrendo entre meus dedos. E vou esquecendo, como se tivesse sido apenas um sonho, um doce devaneio num momento de distração, que agora dá lugar a uma realidade vazia e caótica.

E seria até capaz de me esquecer completamente, não fosse a certeza de que em cada lugar, cada coisa, cada som e cada gesto há um vazio . É como se algo perdido tivesse levado um pouco de tudo consigo e isso tivesse formado um vácuo que me prende e te prende em mim.

Pois, junto de cada passo me ocorrem novas imagens, de coisas que foram e de outras que teriam sido se eu não “despertasse”.

São os lugares em que estivemos juntos e em que fomos tão felizes e tão tristes. Sou obrigado a continuar passando por eles e fingindo que são os mesmos lugares... Mas não são, quando você foi embora levou metade de tudo com você, levou inclusive metade da minha realidade. Agora é como se eu estivesse preso entre a sua realidade, que para mim não passa de um sonho, e a metade que restou que está mutilada e incompleta.

E me acompanha onde quer que eu vá, e em tudo o que eu faça esse eco, quase como se eu te buscasse e implorasse para você voltar... Como se eu não soubesse que isso é impossível, que te mandei embora para sempre antes mesmo de você realmente existir.

Mas te amei, queria que você soubesse. Amei-te mesmo antes de você existir e te amo mesmo sem nunca ter te possuído. E se te sacrifiquei em meu favor, sabia que a responsabilidade é apenas minha e que minha mágoa e minha culpa só não são maiores porque, misericordiosamente, metade de ti permanece comigo. Ao menos até que o verdadeiro dono a reivindique.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

UMA ALVORADA

“Durante o dia nada mais fácil do que mostrar que não se da importância, mas, a noite é diferente.”

Ernest Hemingway


E quanto mais terrível mais fácil é convencer a todos de que nunca se esteve tão bem. Pois se quisesse poderia me mostrar radiante e irradiar felicidade; poderia fazê-los todos acreditar em cada palavra falsa e em cada sorriso vazio; fazê-los invejarem eternamente minha confiança, minha coragem, minha virtuosidade.

Tão bem poderia que seria até capaz de enganar a mim próprio, não fossem as noites... Não fosse, nos momentos de inevitável solidão, minha alma cobrar o preço tão justo e tão caro pela força de meu corpo. E então é obrigatório, sou forçado a viver em minha realidade. Desolador é se ver assim miserável, mas é a verdade; de mim mesmo não posso esconder o que sinto pois isso é mais que qualquer blefe.

Dizem que os melhores remédios são os que amargam a boca... Devo, pois estar no caminho certo, já que o gosto da quássia não me abandona em momento algum, e aumenta quando sussurro teu nome numa espécie de reza quase muda. Maldito gosto fixo em meus lábios, maldito, pois quase faz com que eu me esqueça do teu sabor, assim como aos poucos perco teu cheiro, assim como já não há nada entre meus braços...

Então já não sei se quero me curar... O que acontece depois que eu te superar? Onde buscarei momentos tão felizes quanto os que você me deu? Deixe-me viver isso um pouco mais... Que o estupor de meus dias se perca no desespero de minhas noites, e que o único fel em meus lábios seja a lembrança de tuas lágrimas que arranquei.

sábado, 12 de setembro de 2009

LEMON PIE


Estranho é quando abandonado em si mesmo o ser tenta explicar seus porquês. Pois sei o que seria sensato depois de tudo o que aconteceu, sei o que e como deveria fazer, os pensamentos que deveria ter. Tenho consciência daquilo que seria mais correto, mas não quero, absolutamente, fazê-lo.

Meus desejos e sonhos parecem controlar meus atos e me entrego ao exato contrário daquilo que deveria viver nesse momento. E a sinceridade é que isso me satisfaz. O que vivo ultimamente é prazeroso e, de certa forma, recompensador. Julgando racionalmente seguir com isso é um erro, um erro que já cometi inclusive diversas vezes, mas ao me lembrar dos últimos dias parece risível pensar que estamos errados...

Porque ao fechar meus olhos o que me ocorre não parece errado e nem parece caminhar para um final triste. Seja lá como for é difícil acreditar no que acontece ao meu redor e me envolve. É complexo demais para me lembrar de tudo, mas me lembro de detalhes e isso é o principal.

São músicas, lugares, conversas que nos ligam cada vez mais; são olhares, risos e redenções que me fazem me entregar. Difícil é a incompreensão, não entender o que sei que estou sentindo... Com certeza já senti tudo isso antes, mas agora é diferente. Antigos sentimentos com uma cara completamente nova, assim como as pessoas que às vezes surgem como novas.

Acho que vale o risco. Não sei qual o final reservado para nós, mas acho que será bom e valerá à pena. Amigos antes de tudo e um pouco mais de tempero enquanto durar o apetite...