terça-feira, 29 de setembro de 2009

OBíQUO

É como se tivesse sido apenas um sonho e agora eu estivesse desperto. Acordado, caminho pelos lugares em que se passaram meus sonhos, como se buscasse uma nova ilusão. E é estranho, pois esses lugares parecem perfeitamente iguais, mas falta-lhes algo, como se em sua amplitude algo tivesse sido roubado e os cenários dos meus sonhos e de meus dias estivessem mutilados.

Em toda parte há uma brisa, uma espécie de sussurro ou de eco que tenta me lembrar de algo que está se desfazendo e escorrendo entre meus dedos. E vou esquecendo, como se tivesse sido apenas um sonho, um doce devaneio num momento de distração, que agora dá lugar a uma realidade vazia e caótica.

E seria até capaz de me esquecer completamente, não fosse a certeza de que em cada lugar, cada coisa, cada som e cada gesto há um vazio . É como se algo perdido tivesse levado um pouco de tudo consigo e isso tivesse formado um vácuo que me prende e te prende em mim.

Pois, junto de cada passo me ocorrem novas imagens, de coisas que foram e de outras que teriam sido se eu não “despertasse”.

São os lugares em que estivemos juntos e em que fomos tão felizes e tão tristes. Sou obrigado a continuar passando por eles e fingindo que são os mesmos lugares... Mas não são, quando você foi embora levou metade de tudo com você, levou inclusive metade da minha realidade. Agora é como se eu estivesse preso entre a sua realidade, que para mim não passa de um sonho, e a metade que restou que está mutilada e incompleta.

E me acompanha onde quer que eu vá, e em tudo o que eu faça esse eco, quase como se eu te buscasse e implorasse para você voltar... Como se eu não soubesse que isso é impossível, que te mandei embora para sempre antes mesmo de você realmente existir.

Mas te amei, queria que você soubesse. Amei-te mesmo antes de você existir e te amo mesmo sem nunca ter te possuído. E se te sacrifiquei em meu favor, sabia que a responsabilidade é apenas minha e que minha mágoa e minha culpa só não são maiores porque, misericordiosamente, metade de ti permanece comigo. Ao menos até que o verdadeiro dono a reivindique.

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